Produtor
Medeia Filmes Lda
Breve Introdução
Celebram-se este ano os 120 anos do nascimento e assinalam-se os 50 anos da morte de um dos grandes génios da arte cinematográfica, Luchino Visconti (1906-1976), e no Teatro Campo Alegre regressamos à sua obra com um ciclo de 7 dos seus filmes (Visconti realizou, ao longo da sua vida 14 filmes e alguns segmentos de filmes coletivos).
Visconti, que nasceu no seio de uma família da aristocracia de Milão e cresceu entre os palcos do teatro e da ópera, e que desde muito novo privou com os grandes cantores líricos e escritores, numa das suas muitas viagens a Paris, onde conheceu e travou amizade com Bernstein e Coco Chanel, e os escritores André Gide e Jean Cocteau, começou também a frequentar o mundo do cinema e seria assistente de Jean Renoir em Une Partie de campagne (1936). No início dos anos 40, passa a viver em Roma (a mãe, com a qual tinha uma ligação muito forte morrera em 1939 e o seu pai logo a seguir, em 1941), e aproxima-se dos jovens intelectuais da revista Cinema, que era um foco de oposição ao regime fascista e na qual colaborará com alguns textos fundamentais.
Por essa altura começa a trabalhar, com a colaboração de vários amigos, entre eles Antonio Pietrangeli ou o escritor Alberto Moravia, num argumento vagamente inspirado no romance de James Cain, O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, que Renoir lhe dera a conhecer, e que dará origem ao seu primeiro filme, Obsessão | Ossessione (1943), que se estrearia com vários cortes da censura e foi vilipendiado pelo filho de Benito Mussolini. Ossessione, até esta data inédito comercialmente em Portugal, seria também considerado o primeiro filme neorrealista italiano.
Nesses anos da Segunda Grande Guerra e da resistência, Visconti aproxima-se do Partido Comunista Italiano. Dedicou-se apaixonadamente ao teatro, e encenou, entre outras, obras de Cocteau, Hemingway, Sartre, Dostoiévski e Tennessee Williams. Voltaria regularmente às suas encenações. No fim da década, e a partir de uma encomenda que depois tomaria outro rumo, realiza o seminal A Terra Treme | La terra trema (1948), centrado na luta dos camponeses sicilianos pela terra e que se estrearia no Festival de Veneza, onde seria premiado.
Senso – Sentimento, de 1954, é uma das suas obras-primas, na qual como que reescreve o romance de Camillo Boito: “As ruas de Veneza (quem nunca viu Senso nunca viu Veneza), os celeiros de Lonedo (quem nunca viu Senso nunca viu o Palladio), as praças de Verona (quem nunca viu Senso nunca viu Sanmicheli) foram, em 1954, os palcos excessivos, exacerbados e exorbitados para a mais fantomática presença da mais fantomática das vozes.” [João Bénard da Costa]. Em 1957, realiza As Noites Brancas, a partir de Dostoiévski, Leão de Prata em Veneza, extraordinária reflexão entre a dicção e o décor, onde trabalha com Maria Schell, Marcello Mastroianni e Jean Marais.
A década de 60 inicia-se com Rocco e os seus Irmãos, com Claudia Cardinale e Alain Delon, com os quais trabalharia de novo, obra romanesca e familiar (é a história de uma mãe e dos seus cinco filhos, diz Visconti), e que, apesar de alguns cortes da censura, foi o seu primeiro grande sucesso de crítica e de público, depois do Prémio Especial do Júri, em Veneza.
Depois de uma hospitalização prolongada devida a uma trombose no início dos anos 70, dar-nos-ia ainda dois filmes absolutamente extraordinários: Violência e Paixão (1974), de novo com Burt Lancaster, Helmut Berger e Silvana Mangano, obra-prima súmula das suas obsessões e fantasmas e talvez o seu filme mais pessoal, e, por fim, outra obra-prima, O Intruso, história de infidelidade e traição no seio da aristocracia italiana do séc. XIX , a partir do romance de Gabriele D'Annunzio, que conhecia desde a infância. Visconti morreria em março de 1976, antes da sua estreia em maio no festival de Cannes, que este ano o celebrou com a projeção de um novo restauro do filme.
Como sabemos, muitos dos filmes de Visconti foram alvo de cortes da censura, e muitos deles também não tiveram estreia comercial em Portugal. Vamos ver estes sete, de 23 a 31 de julho no Teatro Campo Alegre, na íntegra, e em todo o seu esplendor, como merecem, em cópias restauradas. — Medeia Filmes
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