Promotor
Teatro Umano - Associação Cultural
Sinopse
Há vidas que não cabem nos arquivos da História. Permanecem na memória dos corpos, na respiração, nos gestos repetidos, nas palavras que atravessaram oceanos e nos silêncios que também aprenderam a falar.
O teatro começa precisamente aí: quando aquilo que parecia pertencer apenas à intimidade de uma vida encontra uma forma de existir diante dos outros.
MARIA-MUNDU nasce de um processo de criação teatral com 47 mulheres, entre os 72 e os 91 anos, oriundas de Cabo Verde, Angola, Moçambique e Portugal. Quarenta e sete corpos, vozes, memórias e imaginários que se encontram para construir uma dramaturgia comum.
Da antiga Pedreira dos Húngaros ao bairro da Outurela, cruzam-se histórias de partidas e chegadas, de casas construídas e reconstruídas, de trabalho, maternidade, vizinhança e pertença. Mas não é a reconstituição dessas histórias que interessa à cena. É a possibilidade de as deslocar do quotidiano, de as transformar em matéria poética, de descobrir aquilo que cada gesto contém para além da sua função e cada memória revela para além da sua narrativa.
A partir das dramaturgias do Eu e do Nós, o Teatro Umano constrói uma escrita cénica onde o testemunho se encontra com a ficção, o teatro documental com a dança, a palavra com a ação física, a memória com a invenção. O corpo torna-se arquivo vivo e território de criação. As mãos que trabalharam, os pés que atravessaram caminhos, os gestos de cuidar, de esperar, de partir e de regressar transformam-se em partituras de movimento. A voz individual encontra o coro. O canto convoca a memória. A imagem dialoga com a presença. O espaço quotidiano transfigura-se em espaço teatral.
Entre o ritual, a composição coral e a poesia física, a encenação procura uma linguagem em que o real não é reproduzido, mas reinventado. Não se trata de representar a vida tal como aconteceu, mas de criar, a partir dela, novas possibilidades de sentido, de relação e de beleza. Em MARIA-MUNDU, a casa é mais do que uma arquitetura. É o corpo que habitamos, o lugar que perdemos, o território que inventamos com os outros. É memória, abrigo, ausência e desejo. Uma casa que se transforma em palco e um palco que se transforma num lugar de encontro. O espetáculo é também um gesto de homenagem. Às mulheres que construíram famílias, bairros e comunidades. Às suas vidas tantas vezes invisíveis, à inteligência dos seus gestos, à sua capacidade de transformar a necessidade em invenção e o quotidiano em criação.
Mas esta homenagem não procura fixá-las no passado. Pelo contrário, celebra a sua presença, o humor, a irreverência, a imaginação e o desejo de continuar a experimentar o mundo. Estas mulheres não entram em cena para serem observadas como testemunhas de uma condição ou de uma idade. Entram como intérpretes, criadoras e protagonistas de uma experiência artística coletiva. Cada uma transporta a singularidade da sua história; juntas, inventam um corpo plural, um coro onde a diferença não desaparece, mas se torna linguagem.
MARIA-MUNDU é, assim, um exercício de teatro e de humanidade. Um lugar onde a memória se transforma em ação, onde o envelhecimento não encerra possibilidades e onde a criação artística continua a abrir espaço ao inesperado.
Ficha Artística
Encenação | Rita Wengorovius
Vídeo | João Pinto, Pedro Vieira
Fotografia | Fernando Cardeira
Ass. de Encenação | Duarte A. Soares, José Reis
Produção | Duarte A. Soares, Teatro Umano
Ass. de Produção | Catarina Mata, Rita Diogo, Rita Lima
Apoio à Produção | CMO - Sandra Borges, Selma Tomásia Fernandes
COM | Aissatu Jaló, Albertina Rodrigues Pereira, Alzira Ayoobmia, Antonina Borges Varela, Assunção Tavares, Catarina Barroqueiro, Celeste da Costa Batista, Domingas Cabral Martins, Domingas Sanches, Eduarda Pereira Sanches, Emilita Mendes Gonçalves, Ermelinda Tavares, Fernanda Alves, Fernanda Costa, Fernanda Dias, Fernanda Sousa, Graça da Conceição Dias, Isabel Santos, Joana Alves, Joana Neto, Josefa Borges, Lourença Semedo, Mansata Djassi Sanhá, Margarida Almeida, Maria Alice Pereira, Maria Balula, Maria da Conceição Varela, Maria de Fátima Lopes da Veiga, Maria de Lourdes Monteiro, Maria Delgado, Maria dos Anjos Tavares Silva, Maria dos Santos Freire Ferreira, Maria Eugenia Vital Silveira da Silva, Maria Isabel Borges, Maria isabel Furtado, Maria José Rodrigues, Maria Júlia Reis, Maria Luísa Monteiro Sanches, Maria Nascimento Rocha, Matilde Fernandes, Narcisa Varela, Rita Wengorovius, Rosa Coelho, Rosa Viegas, Selma Tomásia Fernandes, Teresa Dias, Teresa Landim, Teresa Mendonça
Com o apoio | Fundação BPI/LaCaixa, Câmara Municipal de Oeiras
Preços