Promotor
Teatro Municipal Joaquim Benite
Breve Introdução
A detective Ruth Palmer conduz uma entrevista voluntária a Cameron Andrews, um empresário local respeitado. A conversa decorre numa sala de interrogatórios banal, sob a vigilância impessoal de várias câmaras que registam cada gesto, cada silêncio, cada inflexão. À medida que a entrevista avança, o quadro começa a perder estabilidade. Entre perguntas, silêncios e decisões aparentemente menores, o equilíbrio de poder desloca-se de forma quase invisível.
UM INTERROGATÓRIO, de Jamie Armitage, afasta-se das convenções do thriller ou do drama judicial para se focar na observação minuciosa de um procedimento onde o centro não é o culpado, mas o modo como se constrói o que conta como verdade. Aqui, não se procura a representação de um crime, mas a eficácia de um sistema que actua correctamente segundo as suas próprias regras. Em cena, Cameron Andrews não surge como uma figura ameaçadora; é um homem socialmente adequado, capaz de existir dentro do protocolo com uma credibilidade que nasce da facilidade com que se ajusta ao que o mecanismo reconhece como normal. Perante ele, a inspectora Ruth Palmer representa o ponto até onde o sistema permite agir, sustentando a dúvida o tempo necessário para que a consistência da narrativa seja testada. Entre ambos, John Culin surge como a materialização da lógica institucional, garantindo que nada ocorra fora das margens do protocolo e que a neutralidade administrativa seja a única condição de funcionamento.
A tensão não reside no embate directo, mas na forma como a banalidade e o rigor técnico estabilizam a percepção do real. É precisamente nesta eficácia invisível que reside a inquietação: o reconhecimento de que o sistema não precisa de falhar para ser perturbador. No final, a perturbação não virá do crime nem de uma revelação externa, mas do reconhecimento de que a nossa confiança no que parece claro, coerente e funcional pode ser suficiente para nos fazer falhar. E que esse falhanço não é uma excepção, é normal. É sobre essa normalidade que nos debruçamos.
Nuno Gonçalo Rodrigues.
Ficha Artística
Produção Artistas Unidos
Texto JAMIE ARMITAGE
Tradução JOANA FRAZÃO
Encenação NUNO GONÇALO RODRIGUES
Interpretação AMÉRICO SILVA, EDUARDA ARRIAGA, SIMON FRANKEL Cenografia e Figurinos RITA LOPES ALVES
Assistência de Cenografia FRANCISCO SILVA
Som ANDRÉ PIRES
Luz PEDRO DOMINGOS
Montagem de luz LUCAS DOMINGOS
Vídeo NUNO BARROCA
Operação de vídeo DIANA ESPECIAL, NUNO BARROCA
Assistência de encenação JOANA PAJUELO
Apoio CLUBE ORIENTAL DE LISBOAS
Preços